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Comece menos para entregar mais no time remoto

Limitar o trabalho em andamento faz o time remoto entregar mais rápido e com mais previsibilidade. A Lei de Little explica por quê, e um limite simples no quadro é o jeito de começar.

Quadro Kanban com três colunas: fazer, em andamento com limite de 4 itens, e feito. Uma linha em ultramar-luz marca o limite e um quinto item espera fora da coluna em andamento.

Olhe para o quadro do seu time agora.

Conte quantos itens estão na coluna “em andamento”. Depois conte quantas pessoas existem no time.

Se o primeiro número for bem maior que o segundo, você já sabe por que tudo demora, mesmo com todo mundo ocupado.

Ocupado e entregando são coisas diferentes

Em time remoto, começar trabalho novo é muito fácil. Ninguém vê quem está parado, e esperar uma resposta de alguém em outro fuso pode levar um dia inteiro.

Então, quando um item trava, o caminho natural é pegar outro. Para cada pessoa, isso faz sentido. Para o time, o quadro enche, e cada item passa mais tempo esperando do que sendo trabalhado.

O preço de voltar para uma tarefa

Gloria Mark e colegas, da Universidade da Califórnia em Irvine, acompanharam 36 profissionais durante três dias de trabalho, entre gerentes, analistas, desenvolvedores e engenheiros, e cronometraram cada interrupção. Em média, levava 23 minutos e 15 segundos para voltar a uma tarefa interrompida, passando por cerca de duas outras atividades no caminho.

Esse intervalo inclui o tempo gasto com a interrupção e com outras atividades, e não só o esforço de recuperar o foco. Mesmo assim, ele mostra o custo escondido de ter muita coisa aberta ao mesmo tempo.

A conta que explica tudo

Existe uma relação simples, conhecida como Lei de Little, formulada por John Little em 1961. Em um sistema estável, o tempo médio que um item leva para ficar pronto é igual ao trabalho em andamento dividido pela vazão.

Um exemplo ilustrativo. Um time entrega 3 itens por semana.

Com 12 itens em andamento, cada um leva em média 4 semanas. Com 6 itens em andamento e a mesma vazão, cada um leva 2 semanas.

Ninguém precisou trabalhar mais rápido. O time só começou menos coisas ao mesmo tempo.

Do tempo de ciclo à previsibilidade

Quando o tempo de ciclo fica curto e estável, o histórico do time passa a servir como promessa. Em vez de estimar item por item, você olha quanto tempo os itens costumam levar e se compromete com o percentil 80 desse histórico.

Num processo de gestão de fluxo que criei, customizado para a cultura de uma empresa de varejo digital, a previsibilidade de entrega subiu 80%. O ganho veio de trocar a estimativa por um compromisso baseado no histórico do tempo de ciclo, medido pelo percentil 80.

Como começar sem drama

  • Some o que está em andamento hoje. Esse é o seu ponto de partida, sem julgamento.
  • Defina um limite para a coluna “em andamento”, perto do número de pessoas. Num time de 5 pessoas, por exemplo, um limite de 4 (valor ilustrativo) já obriga o time a escolher.
  • Quando o limite estourar, ninguém puxa trabalho novo. A pergunta passa a ser “o que posso ajudar a terminar?”.
  • Deixe o bloqueio visível. Item travado ganha uma marca e um dono para destravar, com prazo combinado para a resposta.
  • A cada duas semanas, olhe o tempo de ciclo e ajuste o limite.

O que muda na conversa do time

Sem limite, a pergunta do dia é “quem está livre?”. Com limite, vira “o que podemos terminar hoje?”.

Quem lidera à distância não enxerga a ocupação de ninguém, e tentar enxergar vira vigilância. O que dá para enxergar, com honestidade, é o fluxo do trabalho.

Quantos itens estão em andamento no seu quadro hoje, e há quanto tempo o mais antigo está lá?

Fábio CarigéEngineering Managerfabiocarige.com.br